Em 2018…

Se no passado ano encontramos razões mais do que suficientes para a criação de uma lista com os melhores e os piores momentos do mercado nacional (as melhores e as piores edições), para 2018, não conseguimos identificar algo, que nos permitisse redigir algo semelhante. E porquê? Bem… “banalidade” será, talvez, a palavra que melhor justifique este cenário. 

Mergulhados numa avalanche (controlada) de edições Steelbook, acompanhada pela já habitual multiplicidade das simples “caixas azuis em plástico” (as, carinhosamente, apelidadas amaray) e ignorados pela gigante Disney… tudo contribuiu para que 2018 se transformasse num dos anos mais desinteressantes para o mercado português do entretenimento doméstico. 

Foi logo no início do ano que a única edição diferenciadora alcançou o mercado nacional. Em março, chegou-nos a versão Digibook Blu-ray para o controverso filme Liga da Justiça. Este momento ditou, não só, o início, mas também o fim de toda a inovação de 2018. A monotonia instalou-se… E, curiosamente, aqui pelo Sétima, tornou-se, aliás, um desafio procurar termos alternativos, que noticiassem os mesmos acontecimentos. Semana após semana, dia após dia, repetia-se o mesmo conteúdo, alternando apenas o título do filme presente. Com isto, tínhamos entrado num ciclo vicioso. Um vício de metal, que nos trouxe dezenas de edições Steelbook para as lojas e, por consequência, para as nossas coleções. 

Neste momento, poderão considerar que as anteriores palavras navegam, demasiado, por uma onda de ingratidão. Como poderemos criticar o lançamento de edições Steelbook, em tudo superiores às banais caixas Amaray? Porém, a nossa visão, vai muito para além da crítica…

Será, talvez, de conhecimento geral que toda a especialidade de qualquer objeto, depressa desaparece quando o mesmo começa a ser tratado com a maior banalidade possível. É a exclusividade que torna algo único. Quando edições que tomamos como mais premium são atribuídas a todo o tipo de títulos, até aqueles mais “medíocres”, perde-se grande parte do valor superior atribuído. Isso foi o que ocorreu com as edições Steelbook nacionais. 

Analisando o seu sucesso de vendas em anos anteriores, quando a sua chegada ao mercado nacional era muito mais limitada, existiu uma clara intenção das distribuidoras, em massificar este tipo de edições o mais depressa possível. O especial transformou-se no banal… e, sem qualquer outro tipo de edição especial a chegar, o Steelbook transformou-se na nova Caixa Amaray. 

Sem regras de lançamento, aparentemente, definidas por parte das distribuidoras, um acumular de stock emergiu pelas lojas. Filmes, sem qualquer capacidade de venda neste pequeno mercado, foram presenteados. Porém, as suas edições, como esperado, não venderam. Com os lucros a diminuir, isto provocou fortes quebras de preços. Com vários exemplares a serem “despachados” por 5€ ou menos. 

Contudo, também despoletou um forte corte nos lançamentos. Estúdios, como o caso da Universal Pictures, que, entre 2016-2017, foi um dos principais impulsionadores deste formato, desistiu, por completo, deste tipo de edições, depois de várias edições suas habitarem as prateleiras das lojas por longos meses. Filmes como Mundo Jurássico: Reino Caído e o sucesso de bilheteiras nacional Mamma Mia! Here We Go Again, viram os seus Steelbook anunciados e, depressa, cancelados. Esta foi uma inundação de Steelbook, inicialmente, recebida com toda a alegria possível mas que, devido a uma má gestão das distribuidoras, tornou-se no maior inimigo do mercado.

Depois da instalação da banalidade, chegava, assim, a irresponsabilidade. Com ela, um iminente regresso ao negro período do “reino do plástico azul”. Porém, essa possibilidade em nada se apresentava tão perigosa, como o iminente regresso dos estúdios Disney à era da falta de definição. Ou melhor, à era da falta de definição física. 

Depois de, no final de 2017, ter dado os primeiros sinais de abandono ao mercado português, com a falta crucial de edições Blu-ray para grandes títulos, em 2018, veio a confirmação de que mais nenhum outro lançamento dos estúdio seria realizado neste formato. Com legendas em português retiradas de todos os discos internacionais, estava, assim, ditado o fim da alta definição para qualquer título Disney, Pixar e Marvel (salvando-se apenas Star Wars(. Tudo a favor de um novo serviço de streaming, o Disney+, que terá um futuro muito pouco promissor em Portugal. Como esperam reconquistar a confiança daqueles que estão dispostos a pagar a totalidade de preço pela Sétima Arte, depois de os terem ignorado por longos meses? Impossível, Disney… 

Com este principais acontecimentos, o mercado português entrou em declínio. Depois de um ano banal, sem nada de extraordinário a apontar – principalmente, positivo – as nossas previsões para o futuro não são muito promissoras. 

Este pequeno mercado diminui cada vez mais e sem sinais de mudança. Esperemos estar enganados quanto a esta visão, mas 2019 tem tudo para ser uma repetição de 2018. Um período vivido, acima de tudo, em constante incerteza. 

Chegou o momento das distribuidoras repensarem as suas ações. Sabendo que trabalham para um público muito pequeno, mas que essa mesma audiência exige qualidade superior, precisam de começar a apostar nisso… mas de um modo consciente. Isto significará, menos tiragem em cada lançamento, mas melhores e maiores edições. Sabemos que a logística das questões de distribuição e contratos entre estúdios poderá dificultar isso, mas é uma questão necessária de análise, para a sobrevivência do formato físico em Portugal.

Deste modo, acreditamos que este será o nosso futuro… como verificamos, a massificação não resultará. Infelizmente, fazemos parte de uma realidade pequena, onde a Sétima Arte continua a ser vista com um dos parentes pobres da arte e cultura. 

3 Comments Add yours

  1. Paulo Eduardo diz:

    Excelente artigo e que reflecte o que de facto se passa no mercado nacional…

    É inaceitável que não tenhamos acesso aos filmes que outros (diga-se Espanha por exemplo), têm acesso…
    Eu até já mandava vir de lá os meus filmes, por falta de conteúdos por cá… mas ao retirarem as legendas, já estou a tentar aceder aos 4k do Brasil!!!!

    Ridículo isto… É como dito no artigo… Menos quantidade, melhores bundles mesmo que mais caro…
    Eu sou coleccionador e gosto de ter os meus filmes como pedaços de arte, que posso ver e olhar quando me apetece…

    Como podemos pressionar quem de direito para uma mudança de paradigma?

    Cumprimentos,

    Paulo Eduardo

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    1. Olá, Paulo.

      Infelizmente, aqueles que têm o poder de fazer algo, não se importam. As distribuidoras nacionais atiram todas as culpas para os estúdios e os próprios estúdios limitam-se a enviar, constantemente, as mesmas respostas padrão de que “atuam de acordo com as particularidades de cada mercado”. É verdade que a força do nosso mercado tem diminuído cada vez mais, mas ainda existe um forte nicho disposto a pagar pela qualidade. Se existisse vontade, da parte de quem tem o poder, em manter um diálogo aberto entre os consumidores, procurando entregar o que estes, de facto, querem, as coisas funcionaram muito melhor. Mas, infelizmente, essa entidades atuam, completamente, isoladas do exterior, não querendo partilhar nada com ninguém…

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      1. Paulo Eduardo diz:

        É que sem novidades ninguém vai mesmo comprar o que seja… Tenho o meu leitor 4K mais tempo parado do que desejaria, muito por falta de conteúdos 4K para ele… Digamos com legendas em PT….

        Eu não me importo de pagar mais se tiver mais… queria ter o terminator 2 em 4k não á… queria o terminator genisys em 4k… Não á….
        Queria ter o últimos Star Wars em 4K… Não á… e isto é uma constante na maioria dos novos títulos…

        Será assim tão difícil colocar umas legendas dentro de um bluray?… Ridículo…

        Cumprimentos,

        Paulo Eduardo

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